O FUNDAMENTO RACISTA DA ARQUITETURA NUCLEAR
- 10 de jan. de 2021
- 24 min de leitura
Atualizado: há 7 dias
ELAINE SCARRY

The Racist Foundation of Nuclear Architecture, via Boston Review. Originalmente publicado em The Bulletin of The Atomic Scientists ○ 05/08/2020
Tradução R. d' Arêde
► Torna-se cada vez mais evidente que a crença racista na supremacia branca fundamenta o arsenal nuclear dos Estados Unidos, e que a atitude do país em relação às armas nucleares reforça o racismo em seu próprio território.
No último Memorial Day[i] , um policial de Minneapolis se ajoelhou sobre o pescoço de um homem negro, George Floyd, por 8 minutos e 46 segundos. Há 75 anos, um piloto estadunidense lançava uma bomba atômica sobre a população civil de Hiroshima. Acontecimentos separados no tempo, na espaço e na escala, os dois eventos compartilham três características-chave: ambos foram um ato de violência de Estado; ambos foram um ato exercido contra um adversário indefeso; ambos foram um ato de puro racismo.
As duas primeiras características — o papel do Estado e a impossibilidade de autodefesa — provavelmente exigem pouca elaboração. Ambos os eventos foram atos de crueldade estatal: no primeiro caso, os agentes do Estado agiram em seu próprio território, já no segundo, em território estrangeiro. Ambos os eventos foram atos contra um adversário indefeso: as mãos de George Floyd estavam algemadas para trás; ele não resistia à prisão, nem colocava em risco os agentes policiais, sequer os desafiava verbalmente, usando a voz apenas para suplicar que o deixassem respirar e para chamar por sua falecida mãe, à qual logo se juntou. Tampouco puderam se defender os estadunidenses negros executados na longa fila que antecede George Floyd. É o caso de Breonna Taylor, cujo trabalho como técnica de emergências médicas envolvia diariamente tanto a proteção de seus pacientes quanto a própria. Mas ela não poderia, dormindo profundamente em sua cama, recorrer a qualquer tipo de autodefesa quando a polícia de Louisville, sem mandado e depois da meia-noite, arrombou a porta de sua casa e atirou nela oito vezes.
O reconhecimento — agora amplamente compartilhado — de que o racismo policial nos Estados Unidos não se limita a casos isolados de agentes individuais, mas sim constitui uma realidade sistêmica, implica também no reconhecimento de que os estadunidenses negros perderam o direito de autodefesa nas suas interações com a polícia, um direito que, pode-se argumentar, subjaz a todos os outros. Nos Estados Unidos, populações racializadas — incluindo nativo-americanos, cujo índice de mortes pela polícia é o mais alto entre todos os grupos raciais[1] — não podem se defender. Qualquer pessoa que se percebesse na iminência de ser assassinada tentaria resistir (correndo, recusando-se a ser algemada, brandindo os braços ou alguma arma), mas, no caso, essa resistência seria usada de forma retroativa para justificar um assassinato que já estava em andamento. A única escolha é obedecer ou resistir — em outras palavras, é ser morto ou ser morto.
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A autodefesa também não foi uma opção para os 300 mil habitantes civis de Hiroshima, tampouco para qualquer um dos 250 mil em Nagasaki. O clássico Hiroshima, de John Hersey, nos revela que, naquela manhã de agosto, ao nascer do sol, a cidade estava repleta de iniciativas corajosas destinadas ao fortalecimento da capacidade coletiva de autodefesa contra ataques de guerra convencionais — como a limpeza das faixas de emergência do corpo de bombeiros, então realizada por centenas de alunas colegiais, muitas das quais desapareceriam instantaneamente sob o calor de 6.000°C do clarão inicial, enquanto outras tantas, mais distantes do epicentro, manteriam suas vidas, mas perderiam seus rostos.[2]
Os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki deram início a uma era na qual, pela primeira vez na história e estendendo-se ao longo de sete décadas e meia até os dias atuais, a humanidade perdeu, coletiva e sumariamente, o direito de autodefesa. Ninguém no mundo, ou quase ninguém[3], possui os meios necessários para sobreviver a uma explosão quatro vezes mais quente que o sol, nem para enfrentar a violência dos ventos e a fúria das chamas que vêm em seguida.
Os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki deram início a uma era na qual, pela primeira vez na história e estendendo-se ao longo de sete décadas e meia até os dias atuais, a humanidade perdeu, coletiva e sumariamente, o direito de autodefesa.
Seria correto designar a autodefesa como o direito subjacente a todos os outros? A liberdade de expressão, por exemplo, importa por milhares de razões, mas, em seu nível mais elementar, ela importa porque aumenta as chances de alguém se defender e, por meio desse ato, sobreviver. O mesmo vale para o direito de livre imprensa, o direito de livre associação, o direito a um julgamento justo e o direito de não ser submetido a buscas e apreensões sem mandado. Cada um desses direitos se justifica por seus muitos benefícios, mas o essencial é que todos eles reforçam o direito de autodefesa, o direito de se proteger e, consequentemente, preservar a própria vida. Durante séculos, a filosofia política tem questionado: "que tipo de ordenamento político resultará em um povo nobre e generoso?" Certamente não será aquele em que alguns poucos homens controlam os meios para destruir, arbitrariamente, todos os habitantes do mundo — dos quais os meios de autodefesa foram eliminados.
A terceira característica comum entre o Memorial Day de 2020 e os dias 6 e 9 de agosto de 1945 é o racismo que tornou cada um destes eventos possível. O racismo é uma deformação da percepção que resulta no julgamento de que pessoas com uma determinada cor de pele ou procedência étnica não são apenas menos merecedoras (de emprego, educação, dinheiro, assistência médica, confiança, responsabilidade, perdão, simpatia), mas também dispensáveis — podendo ser linchadas, asfixiadas ou terem seus rostos queimados; podemos fazer um estudo de acompanhamento mais tarde.
Quando os estadunidenses souberam pela primeira vez que os habitantes de Hiroshima e Nagasaki haviam sido coletivamente vaporizados em menos tempo do que o coração leva para bater, muitos aplaudiram. Mas não todos. O poeta negro Langston Hughes imediatamente reconheceu a depravação moral de executar 100 mil pessoas e identificou o racismo como o fenômeno que havia licenciado tal depravação: "Como é que não as experimentamos [as bombas atômicas] na Alemanha? Simplesmente não queriam usá-las contra gente branca"[4]. Embora a construção da arma tenha sido concluída somente após a rendição da Alemanha, em 7 de maio de 1945, o Japão já havia sido designado como alvo desde 18 de setembro de 1944, e o treinamento para a missão havia começado naquele mesmo mês[5]. O jornalista negro George Schuyler escreveu: "A bomba atômica coloca os anglo-saxões definitivamente no topo, onde permanecerão por décadas". O país, em sua "arrogância racial", "alcançou o triunfo supremo de ser capaz de dizimar cidades inteiras de uma só vez"[6]. Ainda no primeiro ano (antes de John Hersey começar a despertar os estadunidenses para o horror repulsivo dos ferimentos), a romancista e antropóloga Zora Neale Hurston denunciou o presidente dos Estados Unidos como um "carniceiro" e desprezou a cumplicidade silenciosa do público, perguntando: "É por sermos tão devotados a um ‘bom sinhô’[ii] que não sentimos sequer o dever de protestar contra tais crimes?”[7] Ela viu nesse silêncio — fosse ele praticado por brancos ou por populações racializadas — um ato covarde de escravização moral à supremacia branca.
Cada uma dessas três passagens, assim como dezenas de outras, está documentada na brilhante obra histórica de Vincent Intondi, African-Americans Against the Bomb (2015), que relata o repúdio da comunidade negra às armas nucleares desde a década de 1940 até o discurso do presidente Obama em Praga, em 5 de abril de 2009: o saxofonista de jazz Charlie Parker, o compositor e pianista Duke Ellington, o ativista dos direitos civis e dos direitos dos homossexuais Bayard Rustin, o poeta e romancista James Baldwin, a dramaturga Lorraine Hansberry, o reverendo e líder dos direitos civis Martin Luther King Jr., e o sociólogo e pan-africanista W. E. B. Du Bois estão entre aqueles que se manifestaram de forma frequente e decisiva. Durante essas mesmas décadas, muitas pessoas brancas também se manifestaram contra a depravação moral das armas nucleares, algumas chegando a sofrer custos terríveis semelhantes aos suportados, por exemplo, por Du Bois[iii], que, em razão de sua veemente denúncia do arsenal nuclear estadunidense, foi em diferentes momentos preso, acusado de atuar como agente estrangeiro sem registro, privado de passaporte e, por fim, levado a expatriar-se para Gana[8]. Mas os estadunidenses negros, além de educarem todos aqueles dispostos a ouvir sobre a depravação moral dos ferimentos infligidos, também têm buscado incansavelmente educar o país sobre a estrutura racial que fornece a plataforma a partir da qual os mísseis são lançados.
Alguns leitores reconhecerão como autoevidente a compulsão dos Estados Unidos pela supremacia branca que atuou na destruição de Hiroshima e Nagasaki e sustenta hoje o prodigioso arsenal nuclear do país, atualmente submetido a uma renovação de 1,2 trilhão de dólares[9]. Mas outros leitores — inclusive alguns que percebem a torpeza moral das armas nucleares e que trabalham incansavelmente por seu desmantelamento — podem relutar em reconhecer esse racismo. Afinal, sabemos que as armas nucleares têm o potencial de eliminar todos os seres humanos da Terra, e não apenas os pertencentes a uma ou outra raça. Estadunidenses e russos, que juntos possuem mais de 93% do arsenal nuclear mundial, há muito são considerados os principais adversários uns dos outros, e os russos são frequentemente descritos, de forma vaga, como racialmente brancos (embora eles, assim como o povo estadunidense, sejam compostos por muitos grupos étnicos distintos). Considerando que uma guerra nuclear tenha grandes chances de ser provocada acidentalmente, ou pela apropriação das armas por um hacker ou por um ator não estatal, os preconceitos raciais conscientes e inconscientes de um presidente ou da cadeia de comando nuclear dos Estados Unidos podem parecer irrelevantes.
Mas três listas — a lista das regiões contra as quais presidentes dos Estados Unidos cogitaram lançar um primeiro ataque nuclear, a lista das regiões onde os Estados Unidos realizaram testes nucleares e a lista dos países que os Estados Unidos condenam por aspirarem à aquisição de armas nucleares — podem, como caminhos de reflexão que irradiam de Hiroshima e Nagasaki, ajudar a tornar inequívocos os fundamentos raciais da arquitetura nuclear.
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Comecemos, então, pelas regiões em relação às quais sabemos que presidentes dos Estados Unidos cogitaram lançar um primeiro ataque nuclear. Em 1954, Dwight D. Eisenhower considerou o uso de uma arma atômica no Estreito de Taiwan. O registro de suas declarações em reuniões privadas revela a presença da questão racial, estivesse ele, em determinado momento, explicando por que poderia usar a arma ou, ao contrário, por que poderia abster-se de utilizá-la: “O presidente disse que devemos reconhecer que o Quemói[iv] não é problema nosso. Ele recebe constantemente cartas dizendo: o que nos importa o que acontece com aquela gente amarela lá fora?”[10]. Richard Nixon nos informa que cogitou ordenar um primeiro ataque nuclear em quatro ocasiões durante sua presidência. Embora não tenha identificado todos os quatro alvos, sabemos que um deles, em 1969, foi a Coreia do Norte. [11]. Ele também considerou bombardear o Vietnã do Norte[12] em 1972. Lyndon Johnson considerou lançar uma arma nuclear contra a China para impedir que o país adquirisse uma arma nuclear.[13]. A essa lista podem ser acrescentadas as ocasiões em que presidentes dos Estados Unidos ameaçaram realizar um primeiro ataque nuclear, como quando o governo de George H. W. Bush, durante a Guerra do Golfo, informou a Saddam Hussein que, caso ele utilizasse armas químicas, mísseis nucleares estavam posicionados para atacar seu país.[14].
Assim como os países escolhidos por presidentes dos Estados Unidos para um primeiro ataque nuclear, a seleção estadunidense de locais para testes nucleares indica a crença de que pessoas racializadas são descartáveis. O doloroso caso das Ilhas Marshall foi resumido de forma sucinta por Dan Zak, do Washington Post: "Os Estados Unidos testaram 67 bombas nucleares de alto rendimento entre 1946 e 1958, reassentando populações inteiras das Ilhas Marshall, expondo muitas pessoas à precipitação radioativa e legando exílio e problemas de saúde às gerações seguintes."[15]. Uma das bombas tinha 15 megatons. Ao descrever o impacto total dos 67 testes, Zak calcula: "Se seu poder explosivo combinado fosse distribuído uniformemente ao longo desse período de 12 anos, equivaleria a 1,6 explosões como a de Hiroshima por dia."[16]. O quadro não se torna mais alentador quando voltamos nossa atenção para os testes realizados em solo estadunidense. Neste verão, com a chegada do 75° aniversário do teste nuclear de Trinity, realizado em 16 de julho de 1945 no Novo México, observadores destacaram a distribuição racial dos afetados: "Não deveria causar surpresa que as populações expostas à precipitação radioativa de Trinity fossem, em sua maioria, famílias empobrecidas de agricultores, predominantemente hispânicas e nativas."[17]. Assim como no Novo México, também em Nevada. Um estudo publicado pela revista médica Risk Analysis concluiu: "Nativo-americanos residentes em uma ampla região situada na direção dos ventos provenientes do Campo de Testes de Nevada, durante as décadas de 1950 e 1960, receberam níveis significativos de exposição à radiação decorrente dos testes de armas nucleares."[18].
A terceira lista diz respeito aos países que condenamos porque seus líderes e cientistas aspiraram desenvolver uma arma nuclear. Os Estados Unidos têm tratado esses aspirantes — em todos os casos pessoas racializadas: iranianos, iraquianos, líbios, norte-coreanos — como imorais, apesar de nossa própria e imensa arquitetura nuclear e apesar de declararmos perante a Corte Internacional de Justiça, em 1995, que possuir um arsenal nuclear, ameaçar usá-lo, usá-lo de fato e usá-lo primeiro, não viola pactos internacionais como a Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio[19]. Os Estados Unidos por vezes fundamentam sua indignação em relação aos aspirantes nucleares no fato de que a aquisição de uma arma nuclear por mais um país violaria o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP); os Estados Unidos denunciam essa violação com indignação moral, ao mesmo tempo que ignoram persistentemente o fato de estarem, há cinquenta anos, violando esse mesmo tratado — que exige, como um de seus pilares centrais, que os Estados já dotados de armas nucleares desmantelem seus próprios arsenais.
Um recente artigo publicado na revista The Atlantic divulgou uma nova pesquisa em neurociência que sugere que pessoas em posição de poder podem sofrer danos cerebrais: a incapacitação dos neurônios-espelho, que normalmente permitem a um indivíduo compreender a posição de outra pessoa ou de outros povos[20]. Um país que possui 6 mil armas nucleares enquanto ataca ferozmente a Coreia do Norte por possuir menos de 30; um país que dispõe de 12 submarinos da classe Ohio, cada um carregando o equivalente a 4 mil explosões de Hiroshima, enquanto entra em guerra contra o Iraque com base em falsas evidências de que este poderia possuir material capaz de levar à construção de uma única arma nuclear; um país que não se dá ao trabalho de comemorar os dias 6 e 9 de agosto e as centenas de milhares de pessoas incineradas nessas datas, mas que censura e repreende os projetos nucleares iranianos, impõe sanções ao país e desencadeia o vírus digital Stuxnet[vi], sabotando a usina de enriquecimento de urânio do Irã[21]; um país que convence a Líbia a se desfazer de seus materiais nucleares e, depois que ela o faz, intervém para ajudar a assassinar o líder do país, pode muito bem parecer um país cujos governantes — e talvez também parte de sua população — já não possuem neurônios-espelho funcionais.
Quando essa assimetria devastadora é apontada, os Estados Unidos dizem: "sim, mas eles (isto é, pessoas racializadas) podem vir a usá-lo, enquanto nós (brancos no comando dos Estados Unidos) não faremos isso" — uma declaração manifestamente incoerente, visto que os Estados Unidos foram o único país a usá-lo, e usá-lo duas vezes![22]. O alarme extremo provocado pela ideia de armas nucleares nas mãos de mais um país raramente se manifesta quando os Estados Unidos distribuem suas próprias armas aos aliados da OTAN, atualmente Alemanha, Bélgica, Holanda e Itália (a Turquia também possui armas nucleares estadunidenses, mas muitas foram removidas após o ano 2000, e aquelas que permanecem tornaram-se, desde 2016, fonte de crescente preocupação[23]). Como esses quatro países são tradicionalmente vistos como povos de maioria branca, o perigo de um uso imprudente é aparentemente inexistente; a proliferação dessas armas para esses países não viola, na visão dos Estados Unidos, o Tratado de Não Proliferação. Em uma demonstração de pensamento duplo que talvez surpreendesse até mesmo George Orwell, eles reconhecem tranquilamente que, em caso de guerra (quando os países participantes do compartilhamento nuclear da OTAN forem chamados a participar da entrega dessas armas), o Tratado de Não Proliferação deixará de estar em vigor.[24]
Retornamos, então, à questão: que tipo de ordenamento político criará um povo nobre e generoso? Que tipo de ordenamento impedirá que um país cometa flagrantes assassinatos em massa no futuro? Que tipo de ordenamento permitirá que esse país assuma a responsabilidade pelos danos que infligiu no passado, tanto em seu próprio território (a nativo-americanos e afro-estadunidenses) quanto em solo estrangeiro (às populações de Hiroshima e Nagasaki)? Que tipo de ordenamento os ajudará a se dedicar ao desmantelamento das forças policiais mal treinadas e militarizadas que patrulham suas cidades, bem como ao desmantelamento da arquitetura nuclear nacional? Essas realizações são grandiosas e difíceis, mas certamente também constituem o mínimo necessário se aspiramos, um dia, nos tornar um povo grande e bom.
Langston Hughes expressou a opinião de que, enquanto a injustiça racial em território estadunidense não cessar, “será muito difícil para alguns estadunidenses não pensar que a maneira mais fácil de resolver os problemas da Ásia é simplesmente lançar uma bomba atômica sobre cabeças não brancas por lá”[25]. Embora sua declaração tenha sido feita em 1953, próximo ao oitavo aniversário dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, ela permanece igualmente pertinente hoje, à medida que nos aproximamos do 75º aniversário: naquele momento, assim como agora, a segurança do povo coreano (entre outros povos) estava em questão. A crueldade cotidiana infligida às pessoas racializadas nas ruas de nossas próprias cidades funciona como um ensaio mental para a realização de assassinatos em larga escala fora do país. Ela mantém em forma nossa capacidade de ser cruel; embota a mente e nos acostuma a pronunciar a palavra “descartável”.
Langston Hughes poderia, com igual precisão, ter observado o inverso. Nossa crueldade no exterior endurece nossos corações, permitindo-nos tolerar o espetáculo cotidiano da injustiça racial em nosso próprio país. Os estadunidenses, ao verem seu país ostentar uma vasta arquitetura nuclear cujo único propósito é a eliminação instantânea de grandes populações civis da face da Terra — com os códigos de lançamento casualmente guardados, dia e noite, no bolso do presidente —, absorvem consciente ou inconscientemente a lição do poder, sofrem a mesma deterioração cerebral e acabam se tornando insensíveis à questão de saber se as vidas de nativo-americanos e afro-estadunidenses ainda importam.
A crueldade cotidiana infligida às pessoas racializadas nas ruas de nossas próprias cidades, funciona como um ensaio mental para a realização de assassinatos em grande escala fora do país. Ela mantém em forma nossa capacidade de ser cruel; embota a mente e nos acostuma a pronunciar a palavra “descartável”.
Um Estado justo é um Estado que leva sua população a se importar em ser justa. Pode um país dotado de armas nucleares inspirar sua população a agir com justiça? A própria arquitetura nuclear não exige que essa população perca sua acuidade perceptiva? Se mantivermos os olhos voltados, momento a momento, para esse aparato monumental, ele produzirá uma vergonha e um terror incapacitantes (como ocorreu nas duas primeiras décadas após Hiroshima e Nagasaki, quando o horror das armas e, simultaneamente, da injustiça racial interna ocupavam diariamente o pensamento das pessoas). Em vez disso, nossa visão agora se contraiu a uma estreita faixa de possibilidades suportáveis que, justamente por sua estreiteza, exige um embotamento ético.
Se a acusação de um embotamento autoimposto parecer fantasiosa, pode ser útil considerar críticas recentes dirigidas ao establishment da política nuclear do país. Esse establishment tem a virtude — uma virtude praticada por poucos entre a população — de permanecer consciente da existência do arsenal nuclear do país; mas o faz ao custo de restringir seu campo de visão. No início de 2019, o antropólogo Hugh Gusterson — observador de longa data das comunidades de cientistas nucleares e formuladores de políticas — descreveu, nas páginas do The Bulletin of Atomic Scientists, uma grande assembleia que se reuniu no Instituto Brookings, em Washington, para ouvir um painel de cinco especialistas discutir a “Política do New Start e a Modernização Estratégica”[viii]. Segundo ele, os cinco apresentaram palestras praticamente idênticas, divergindo apenas sobre “a semântica de se caracterizar a combinação da modernização nuclear com o controle de armas como produto de um ‘consenso’ ou de uma ‘coalizão’”[26]. Uma crítica relacionada foi formulada pelo cientista político francês Benoît Pelopidas, que, como anuncia o título de seu trabalho, descreve os “Estudos Acadêmicos sobre Armas Nucleares como um Caso de Autocensura em Estudos de Segurança”. Apesar da ausência de qualquer proibição externa ao livre debate ou de restrições à argumentação, essa comunidade de especialistas reduz voluntariamente seu quadro de referência, a fim de contornar todas as considerações normativas e evitar a contemplação da possibilidade de uma reorganização radical do mundo, como a abolição das armas nucleares. Dois termos — "não proliferação" e "dissuasão" — são empregados incessantemente como instrumentos para confinar a discussão aos limites estreitos das formas habituais de pensar, invalidando como irrealista qualquer ideia alternativa e eliminando, assim, qualquer senso de obrigação para com o futuro[27].
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A morte de George Floyd tem gerado, entre muitos outros desdobramentos, um compromisso com a transformação da arena da política nuclear. No verão de 2020, uma série de instituições de política externa e segurança nacional dos Estados Unidos, incluindo a publicação The Bulletin of Atomic Scientists, assinaram uma declaração elaborada pela organização Women of Color Advancing Peace, Security and Conflict concordando em levar adiante uma série de reformas, tais como assegurar que as instituições dedicadas à paz e à segurança "diversifiquem nossos quadros diretores e conselhos consultivos", reconheçam os efeitos nocivos das "microagressões" contra pessoas racializadas nos locais de trabalho, "denunciem o racismo e compartilhem o fardo de desmantelar a supremacia branca"[28].
Embora a lista de resoluções enfatize mudanças no âmbito dos locais de trabalho e nos órgãos dirigentes destas instituições, pode ser que estas mudanças, por sua vez, conduzam ao reconhecimento da presença do racismo nas próprias filosofias das relações internacionais e das armas nucleares. A obrigação de “denunciar o racismo e compartilhar o fardo de desmantelar a supremacia branca” deve andar junto com a obrigação de reconhecer o fundamento racista da própria arquitetura nuclear (um hemisfério norte coberto por Estados nucleares, um hemisfério sul coberto por tratados de zonas livres de armas nucleares) e desmantelá-la, começando pelos dois Estados que detêm 93% de todas as armas nucleares.
Na maioria das noites de verão de 2020, ocorriam vigílias do movimento Black Lives Matter, não apenas nos grandes centros urbanos, mas também em pequenos municípios por todo o país. Em Arlington, Massachusetts, por exemplo, as pessoas permaneceram de pé, das 18 às 19 horas, usando máscaras e mantendo uma distância segura[xix], ao longo da larga avenida principal, enquanto uma fileira de bicicletas e carros passavam acenando, buzinando, fazendo sinais de positivo em apoio aos cartazes que diziam "Breonna Taylor", "Raychard Brooks", "George Floyd", "Diga o nome deles", "Mais ninguém", "Sem justiça, sem paz”. Nos últimos 8 minutos e 46 segundos do horário marcado, as pessoas se ajoelhavam, sobre um único joelho, e levantavam-se somente após os sinos da igreja anunciarem a conclusão da hora. A postura foi herdada das décadas de luta pelos direitos civis (iniciada por Martin Luther King Jr. e renovada por Colin Kaepernick e os jogadores negros da NFL); a duração desse gesto é uma referência direta ao assassinato de George Floyd, como se, ao reproduzir a ação de ajoelhar-se do policial, pudéssemos voltar atrás, reverter sua intenção e aquele desfecho. A postura expressa uma série de sentimentos: o pesar pela morte de George Floyd; um contrafactual desejo de que aquilo não tivesse acontecido (que lhe fosse permitido voltar a respirar); a vergonha por não termos percebido, coletivamente e durante tanto tempo, a magnitude dos danos infligidos; e um compromisso de reinventar uma forma de policiamento que nutra e auxilie nossas cidades, dos pequenos municípios aos grandes centros urbanos, ao invés de vitimá-las.
Talvez um gesto parecido com esse possa ser realizado — na privacidade do próprio lar, nas avenidas centrais ou em praças e espaços públicos — às 8h15 da manhã do dia 6 de agosto e às 11h02 da manhã do dia 9 de agosto: em memória daqueles que foram assassinados ou ficaram terrivelmente marcados; por remorso de não termos enfrentado mais cedo os danos infligidos; e para compartilharmos o compromisso com o desmantelamento da arquitetura nuclear, a fim de que nos baste rememorar, e nunca mais reencenar, o que aconteceu naqueles dias. Qual seria a duração apropriada? Talvez 53 segundos, o intervalo de tempo entre o momento em que as crianças de Hiroshima apontaram para o B-29 no céu azul e o ofuscante clarão que derreteu seus olhos e apagou o seu mundo. Ou, talvez, os 100 segundos que o Bulletin designou como a janela de tempo que nos separa hoje de uma catástrofe mundial.




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