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O FUNDAMENTO RACISTA DA ARQUITETURA NUCLEAR

  • 10 de jan. de 2021
  • 24 min de leitura

Atualizado: há 7 dias

ELAINE SCARRY

Tradução  R. d' Arêde

  Torna-se cada vez mais evidente que a crença racista na supremacia branca fundamenta o arsenal nuclear dos Estados Unidos, e que a atitude do país em relação às armas nucleares reforça o racismo em seu próprio território.



No último Memorial Day[i] , um policial de Minneapolis se ajoelhou sobre o pescoço de um homem negro, George Floyd, por 8 minutos e 46 segundos.  Há 75 anos, um piloto estadunidense lançava uma bomba atômica sobre a população civil de Hiroshima. Acontecimentos separados no tempo, na espaço e na escala, os dois eventos compartilham três características-chave: ambos foram um ato de violência de Estado; ambos foram um ato exercido contra um adversário indefeso; ambos foram um ato de puro racismo.


As duas primeiras características — o papel do Estado e a impossibilidade de autodefesa — provavelmente exigem pouca elaboração. Ambos os eventos foram atos de crueldade estatal: no primeiro caso, os agentes do Estado agiram em seu próprio território, já no segundo, em território estrangeiro. Ambos os eventos foram atos contra um adversário indefeso: as mãos de George Floyd estavam algemadas para trás; ele não resistia à prisão, nem colocava em risco os agentes policiais, sequer os desafiava verbalmente, usando a voz apenas para suplicar que o deixassem respirar e para chamar por sua falecida mãe, à qual logo se juntou. Tampouco puderam se defender os estadunidenses negros executados na longa fila que antecede George Floyd. É o caso de Breonna Taylor, cujo trabalho como técnica de emergências médicas envolvia diariamente tanto a proteção de seus pacientes quanto a própria. Mas ela não poderia, dormindo profundamente em sua cama, recorrer a qualquer tipo de autodefesa quando a polícia de Louisville, sem mandado e depois da meia-noite, arrombou a porta de sua casa e atirou nela oito vezes.

O reconhecimento — agora amplamente compartilhado — de que o racismo policial nos Estados Unidos não se limita a casos isolados de agentes individuais, mas sim constitui uma realidade sistêmica, implica também no reconhecimento de que os estadunidenses negros perderam o direito de autodefesa nas suas interações com a polícia, um direito que, pode-se argumentar, subjaz a todos os outros. Nos Estados Unidos, populações racializadas — incluindo nativo-americanos, cujo índice de mortes pela polícia é o mais alto entre todos os grupos raciais[1] — não podem se defender. Qualquer pessoa que se percebesse na iminência de ser assassinada tentaria resistir (correndo, recusando-se a ser algemada, brandindo os braços ou alguma arma), mas, no caso, essa resistência seria usada de forma retroativa para justificar um assassinato que já estava em andamento. A única escolha é obedecer ou resistir — em outras palavras, é ser morto ou ser morto.



A autodefesa também não foi uma opção para os 300 mil habitantes civis de Hiroshima, tampouco para qualquer um dos 250 mil em Nagasaki. O clássico Hiroshima, de John Hersey, nos revela que, naquela manhã de agosto, ao nascer do sol, a cidade estava repleta de iniciativas corajosas destinadas ao fortalecimento da capacidade coletiva de autodefesa contra ataques de guerra convencionais — como a limpeza das faixas de emergência do corpo de bombeiros, então realizada por centenas de alunas colegiais, muitas das quais desapareceriam instantaneamente sob o calor de 6.000°C do clarão inicial, enquanto outras tantas, mais distantes do epicentro, manteriam suas vidas, mas perderiam seus rostos.[2]


Os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki deram início a uma era na qual, pela primeira vez na história e estendendo-se ao longo de sete décadas e meia até os dias atuais, a humanidade perdeu, coletiva e sumariamente, o direito de autodefesa. Ninguém no mundo, ou quase ninguém[3], possui os meios necessários para sobreviver a uma explosão quatro vezes mais quente que o sol, nem para enfrentar a violência dos ventos e a fúria das chamas que vêm em seguida.

Os bombardeios de Hiroshima e Nagasaki deram início a uma era na qual, pela primeira vez na história e estendendo-se ao longo de sete décadas e meia até os dias atuais, a humanidade perdeu, coletiva e sumariamente, o direito de autodefesa. 

Seria correto designar a autodefesa como o direito subjacente a todos os outros? A liberdade de expressão, por exemplo, importa por milhares de razões, mas, em seu nível mais elementar, ela importa porque aumenta as chances de alguém se defender e, por meio desse ato, sobreviver. O mesmo vale para o direito de livre imprensa, o direito de livre associação, o direito a um julgamento justo e o direito de não ser submetido a buscas e apreensões sem mandado. Cada um desses direitos se justifica por seus muitos benefícios, mas o essencial é que todos eles reforçam o direito de autodefesa, o direito de se proteger e, consequentemente, preservar a própria vida. Durante séculos, a filosofia política tem questionado: "que tipo de ordenamento político resultará em um povo nobre e generoso?" Certamente não será aquele em que alguns poucos homens controlam os meios para destruir, arbitrariamente, todos os habitantes do mundo — dos quais os meios de autodefesa foram eliminados.


A terceira característica comum entre o Memorial Day de 2020 e os dias 6 e 9 de agosto de 1945 é o racismo que tornou cada um destes eventos possível. O racismo é uma deformação da percepção que resulta no julgamento de que pessoas com uma determinada cor de pele ou procedência étnica não são apenas menos merecedoras (de emprego, educação, dinheiro, assistência médica, confiança, responsabilidade, perdão, simpatia), mas também dispensáveis — podendo ser linchadas, asfixiadas ou terem seus rostos queimados; podemos fazer um estudo de acompanhamento mais tarde. 

Quando os estadunidenses souberam pela primeira vez que os habitantes de Hiroshima e Nagasaki haviam sido coletivamente vaporizados em menos tempo do que o coração leva para bater, muitos aplaudiram. Mas não todos. O poeta negro Langston Hughes imediatamente reconheceu a depravação moral de executar 100 mil pessoas e identificou o racismo como o fenômeno que havia licenciado tal depravação: "Como é que não as experimentamos [as bombas atômicas] na Alemanha? Simplesmente não queriam usá-las contra gente branca"[4]. Embora a construção da arma tenha sido concluída somente após a rendição da Alemanha, em 7 de maio de 1945, o Japão já havia sido designado como alvo desde 18 de setembro de 1944, e o treinamento para a missão havia começado naquele mesmo mês[5]. O jornalista negro George Schuyler escreveu: "A bomba atômica coloca os anglo-saxões definitivamente no topo, onde permanecerão por décadas". O país, em sua "arrogância racial", "alcançou o triunfo supremo de ser capaz de dizimar cidades inteiras de uma só vez"[6]. Ainda no primeiro ano (antes de John Hersey começar a despertar os estadunidenses para o horror repulsivo dos ferimentos), a romancista e antropóloga Zora Neale Hurston denunciou o presidente dos Estados Unidos como um "carniceiro" e desprezou a cumplicidade silenciosa do público, perguntando: "É por sermos tão devotados a um ‘bom sinhô’[ii] que não sentimos sequer o dever de protestar contra tais crimes?”[7] Ela viu nesse silêncio — fosse ele praticado por brancos ou por populações racializadas — um ato covarde de escravização moral à supremacia branca. 

 

Cada uma dessas três passagens, assim como dezenas de outras, está documentada na brilhante obra histórica de Vincent Intondi, African-Americans Against the Bomb (2015), que relata o repúdio da comunidade negra às armas nucleares desde a década de 1940 até o discurso do presidente Obama em Praga, em 5 de abril de 2009: o saxofonista de jazz Charlie Parker, o compositor e pianista Duke Ellington, o ativista dos direitos civis e dos direitos dos homossexuais Bayard Rustin, o poeta e romancista James Baldwin, a dramaturga Lorraine Hansberry, o reverendo e líder dos direitos civis Martin Luther King Jr., e o sociólogo e pan-africanista W. E. B. Du Bois estão entre aqueles que se manifestaram de forma frequente e decisiva. Durante essas mesmas décadas, muitas pessoas brancas também se manifestaram contra a depravação moral das armas nucleares, algumas chegando a sofrer custos terríveis semelhantes aos suportados, por exemplo, por Du Bois[iii], que, em razão de sua veemente denúncia do arsenal nuclear estadunidense, foi em diferentes momentos preso, acusado de atuar como agente estrangeiro sem registro, privado de passaporte e, por fim, levado a expatriar-se para Gana[8]. Mas os estadunidenses negros, além de educarem todos aqueles dispostos a ouvir sobre a depravação moral dos ferimentos infligidos, também têm buscado incansavelmente educar o país sobre a estrutura racial que fornece a plataforma a partir da qual os mísseis são lançados. 


Alguns leitores reconhecerão como autoevidente a compulsão dos Estados Unidos pela supremacia branca que atuou na destruição de Hiroshima e Nagasaki e sustenta hoje o prodigioso arsenal nuclear do país, atualmente submetido a uma renovação de 1,2 trilhão de dólares[9]. Mas outros leitores — inclusive alguns que percebem a torpeza moral das armas nucleares e que trabalham incansavelmente por seu desmantelamento — podem relutar em reconhecer esse racismo. Afinal, sabemos que as armas nucleares têm o potencial de eliminar todos os seres humanos da Terra, e não apenas os pertencentes a uma ou outra raça. Estadunidenses e russos, que juntos possuem mais de 93% do arsenal nuclear mundial, há muito são considerados os principais adversários uns dos outros, e os russos são frequentemente descritos, de forma vaga, como racialmente brancos (embora eles, assim como o povo estadunidense, sejam compostos por muitos grupos étnicos distintos). Considerando que uma guerra nuclear tenha grandes chances de ser provocada acidentalmente, ou pela apropriação das armas por um hacker ou por um ator não estatal, os preconceitos raciais conscientes e inconscientes de um presidente ou da cadeia de comando nuclear dos Estados Unidos podem parecer irrelevantes.


Mas três listas — a lista das regiões contra as quais presidentes dos Estados Unidos cogitaram lançar um primeiro ataque nuclear, a lista das regiões onde os Estados Unidos realizaram testes nucleares e a lista dos países que os Estados Unidos condenam por aspirarem à aquisição de armas nucleares — podem, como caminhos de reflexão que irradiam de Hiroshima e Nagasaki, ajudar a tornar inequívocos os fundamentos raciais da arquitetura nuclear.


 

Comecemos, então, pelas regiões em relação às quais sabemos que presidentes dos Estados Unidos cogitaram lançar um primeiro ataque nuclear. Em 1954, Dwight D. Eisenhower considerou o uso de uma arma atômica no Estreito de Taiwan. O registro de suas declarações em reuniões privadas revela a presença da questão racial, estivesse ele, em determinado momento, explicando por que poderia usar a arma ou, ao contrário, por que poderia abster-se de utilizá-la: “O presidente disse que devemos reconhecer que o Quemói[iv] não é problema nosso. Ele recebe constantemente cartas dizendo: o que nos importa o que acontece com aquela gente amarela lá fora?”[10]. Richard Nixon nos informa que cogitou ordenar um primeiro ataque nuclear em quatro ocasiões durante sua presidência. Embora não tenha identificado todos os quatro alvos, sabemos que um deles, em 1969, foi a Coreia do Norte. [11]. Ele também considerou bombardear o Vietnã do Norte[12] em 1972. Lyndon Johnson considerou lançar uma arma nuclear contra a China para impedir que o país adquirisse uma arma nuclear.[13]. A essa lista podem ser acrescentadas as ocasiões em que presidentes dos Estados Unidos ameaçaram realizar um primeiro ataque nuclear, como quando o governo de George H. W. Bush, durante a Guerra do Golfo, informou a Saddam Hussein que, caso ele utilizasse armas químicas, mísseis nucleares estavam posicionados para atacar seu país.[14].


Assim como os países escolhidos por presidentes dos Estados Unidos para um primeiro ataque nuclear, a seleção estadunidense de locais para testes nucleares indica a crença de que pessoas racializadas são descartáveis. O doloroso caso das Ilhas Marshall foi resumido de forma sucinta por Dan Zak, do Washington Post:  "Os Estados Unidos testaram 67 bombas nucleares de alto rendimento entre 1946 e 1958, reassentando populações inteiras das Ilhas Marshall, expondo muitas pessoas à precipitação radioativa e legando exílio e problemas de saúde às gerações seguintes."[15]. Uma das bombas tinha 15 megatons. Ao descrever o impacto total dos 67 testes, Zak calcula: "Se seu poder explosivo combinado fosse distribuído uniformemente ao longo desse período de 12 anos, equivaleria a 1,6 explosões como a de Hiroshima por dia."[16]. O quadro não se torna mais alentador quando voltamos nossa atenção para os testes realizados em solo estadunidense. Neste verão, com a chegada do 75° aniversário do teste nuclear de Trinity, realizado em 16 de julho de 1945 no Novo México, observadores destacaram a distribuição racial dos afetados: "Não deveria causar surpresa que as populações expostas à precipitação radioativa de Trinity fossem, em sua maioria, famílias empobrecidas de agricultores, predominantemente hispânicas e nativas."[17]. Assim como no Novo México, também em Nevada. Um estudo publicado pela revista médica Risk Analysis concluiu: "Nativo-americanos residentes em uma ampla região situada na direção dos ventos provenientes do Campo de Testes de Nevada, durante as décadas de 1950 e 1960, receberam níveis significativos de exposição à radiação decorrente dos testes de armas nucleares."[18].


A terceira lista diz respeito aos países que condenamos porque seus líderes e cientistas aspiraram desenvolver uma arma nuclear. Os Estados Unidos têm tratado esses aspirantes — em todos os casos pessoas racializadas: iranianos, iraquianos, líbios, norte-coreanos — como imorais, apesar de nossa própria e imensa arquitetura nuclear e apesar de declararmos perante a Corte Internacional de Justiça, em 1995, que possuir um arsenal nuclear, ameaçar usá-lo, usá-lo de fato e usá-lo primeiro, não viola pactos internacionais como a Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio[19]. Os Estados Unidos por vezes fundamentam sua indignação em relação aos aspirantes nucleares no fato de que a aquisição de uma arma nuclear por mais um país violaria o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP); os Estados Unidos denunciam essa violação com indignação moral, ao mesmo tempo que ignoram persistentemente o fato de estarem, há cinquenta anos, violando esse mesmo tratado — que exige, como um de seus pilares centrais, que os Estados já dotados de armas nucleares desmantelem seus próprios arsenais. 

 

Um recente artigo publicado na revista The Atlantic divulgou uma nova pesquisa em neurociência que sugere que pessoas em posição de poder podem sofrer danos cerebrais: a incapacitação dos neurônios-espelho, que normalmente permitem a um indivíduo compreender a posição de outra pessoa ou de outros povos[20]. Um país que possui 6 mil armas nucleares enquanto ataca ferozmente a Coreia do Norte por possuir menos de 30; um país que dispõe de 12 submarinos da classe Ohio, cada um carregando o equivalente a 4 mil explosões de Hiroshima, enquanto entra em guerra contra o Iraque com base em falsas evidências de que este poderia possuir material capaz de levar à construção de uma única arma nuclear; um país que não se dá ao trabalho de comemorar os dias 6 e 9 de agosto e as centenas de milhares de pessoas incineradas nessas datas, mas que censura e repreende os projetos nucleares iranianos, impõe sanções ao país e desencadeia o vírus digital Stuxnet[vi], sabotando a usina de enriquecimento de urânio do Irã[21]; um país que convence a Líbia a se desfazer de seus materiais nucleares e, depois que ela o faz, intervém para ajudar a assassinar o líder do país, pode muito bem parecer um país cujos governantes — e talvez também parte de sua população — já não possuem neurônios-espelho funcionais.


Quando essa assimetria devastadora é apontada, os Estados Unidos dizem: "sim, mas eles (isto é, pessoas racializadas) podem vir a usá-lo, enquanto nós (brancos no comando dos Estados Unidos) não faremos isso" — uma declaração manifestamente incoerente, visto que os Estados Unidos foram o único país a usá-lo, e usá-lo duas vezes![22]. O alarme extremo provocado pela ideia de armas nucleares nas mãos de mais um país raramente se manifesta quando os Estados Unidos distribuem suas próprias armas aos aliados da OTAN, atualmente Alemanha, Bélgica, Holanda e Itália (a Turquia também possui armas nucleares estadunidenses, mas muitas foram removidas após o ano 2000, e aquelas que permanecem tornaram-se, desde 2016, fonte de crescente preocupação[23]). Como esses quatro países são tradicionalmente vistos como povos de maioria branca, o perigo de um uso imprudente é aparentemente inexistente; a proliferação dessas armas para esses países não viola, na visão dos Estados Unidos, o Tratado de Não Proliferação. Em uma demonstração de pensamento duplo que talvez surpreendesse até mesmo George Orwell, eles reconhecem tranquilamente que, em caso de guerra (quando os países participantes do compartilhamento nuclear da OTAN forem chamados a participar da entrega dessas armas), o Tratado de Não Proliferação deixará de estar em vigor.[24]


Retornamos, então, à questão: que tipo de ordenamento político criará um povo nobre e generoso? Que tipo de ordenamento impedirá que um país cometa flagrantes assassinatos em massa no futuro? Que tipo de ordenamento permitirá que esse país assuma a responsabilidade pelos danos que infligiu no passado, tanto em seu próprio território (a nativo-americanos e afro-estadunidenses) quanto em solo estrangeiro (às populações de Hiroshima e Nagasaki)? Que tipo de ordenamento os ajudará a se dedicar ao desmantelamento das forças policiais mal treinadas e militarizadas que patrulham suas cidades, bem como ao desmantelamento da arquitetura nuclear nacional? Essas realizações são grandiosas e difíceis, mas certamente também constituem o mínimo necessário se aspiramos, um dia, nos tornar um povo grande e bom. 


Langston Hughes expressou a opinião de que, enquanto a injustiça racial em território estadunidense não cessar, “será muito difícil para alguns estadunidenses não pensar que a maneira mais fácil de resolver os problemas da Ásia é simplesmente lançar uma bomba atômica sobre cabeças não brancas por lá”[25]. Embora sua declaração tenha sido feita em 1953, próximo ao oitavo aniversário dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaki, ela permanece igualmente pertinente hoje, à medida que nos aproximamos do 75º aniversário: naquele momento, assim como agora, a segurança do povo coreano (entre outros povos) estava em questão. A crueldade cotidiana infligida às pessoas racializadas nas ruas de nossas próprias cidades funciona como um ensaio mental para a realização de assassinatos em larga escala fora do país. Ela mantém em forma nossa capacidade de ser cruel; embota a mente e nos acostuma a pronunciar a palavra “descartável”.


Langston Hughes poderia, com igual precisão, ter observado o inverso. Nossa crueldade no exterior endurece nossos corações, permitindo-nos tolerar o espetáculo cotidiano da injustiça racial em nosso próprio país. Os estadunidenses, ao verem seu país ostentar uma vasta arquitetura nuclear cujo único propósito é a eliminação instantânea de grandes populações civis da face da Terra — com os códigos de lançamento casualmente guardados, dia e noite, no bolso do presidente —, absorvem consciente ou inconscientemente a lição do poder, sofrem a mesma deterioração cerebral e acabam se tornando insensíveis à questão de saber se as vidas de nativo-americanos e afro-estadunidenses ainda importam.

 A crueldade cotidiana infligida às pessoas racializadas nas ruas de nossas próprias cidades, funciona como um ensaio mental para a realização de assassinatos em grande escala fora do país. Ela mantém em forma nossa capacidade de ser cruel;  embota a mente e nos acostuma a pronunciar a palavra “descartável”. 

Um Estado justo é um Estado que leva sua população a se importar em ser justa. Pode um país dotado de armas nucleares inspirar sua população a agir com justiça? A própria arquitetura nuclear não exige que essa população perca sua acuidade perceptiva? Se mantivermos os olhos voltados, momento a momento, para esse aparato monumental, ele produzirá uma vergonha e um terror incapacitantes (como ocorreu nas duas primeiras décadas após Hiroshima e Nagasaki, quando o horror das armas e, simultaneamente, da injustiça racial interna ocupavam diariamente o pensamento das pessoas). Em vez disso, nossa visão agora se contraiu a uma estreita faixa de possibilidades suportáveis que, justamente por sua estreiteza, exige um embotamento ético.


Se a acusação de um embotamento autoimposto parecer fantasiosa, pode ser útil considerar críticas recentes dirigidas ao establishment da política nuclear do país. Esse establishment tem a virtude — uma virtude praticada por poucos entre a população — de permanecer consciente da existência do arsenal nuclear do país; mas o faz ao custo de restringir seu campo de visão. No início de 2019, o antropólogo Hugh Gusterson — observador de longa data das comunidades de cientistas nucleares e formuladores de políticas — descreveu, nas páginas do The Bulletin of Atomic Scientists, uma grande assembleia que se reuniu no Instituto Brookings, em Washington, para ouvir um painel de cinco especialistas discutir a “Política do New Start e a Modernização Estratégica”[viii]. Segundo ele, os cinco apresentaram palestras praticamente idênticas, divergindo apenas sobre “a semântica de se caracterizar a combinação da modernização nuclear com o controle de armas como produto de um ‘consenso’ ou de uma ‘coalizão’”[26]. Uma crítica relacionada foi formulada pelo cientista político francês Benoît Pelopidas, que, como anuncia o título de seu trabalho, descreve os “Estudos Acadêmicos sobre Armas Nucleares como um Caso de Autocensura em Estudos de Segurança”. Apesar da ausência de qualquer proibição externa ao livre debate ou de restrições à argumentação, essa comunidade de especialistas reduz voluntariamente seu quadro de referência, a fim de contornar todas as considerações normativas e evitar a contemplação da possibilidade de uma reorganização radical do mundo, como a abolição das armas nucleares. Dois termos — "não proliferação" e "dissuasão" — são empregados incessantemente como instrumentos para confinar a discussão aos limites estreitos das formas habituais de pensar, invalidando como irrealista qualquer ideia alternativa e eliminando, assim, qualquer senso de obrigação para com o futuro[27].



A morte de George Floyd tem gerado, entre muitos outros desdobramentos, um compromisso com a transformação da arena da política nuclear. No verão de 2020, uma série de instituições de política externa e segurança nacional dos Estados Unidos, incluindo a publicação The Bulletin of Atomic Scientists, assinaram uma declaração elaborada pela organização Women of Color Advancing Peace, Security and Conflict concordando em levar adiante uma série de reformas, tais como assegurar que as instituições dedicadas à paz e à segurança "diversifiquem nossos quadros diretores e conselhos consultivos", reconheçam os efeitos nocivos das "microagressões" contra pessoas racializadas nos locais de trabalho, "denunciem o racismo e compartilhem o fardo de desmantelar a supremacia branca"[28].


Embora a lista de resoluções enfatize mudanças no âmbito dos locais de trabalho e nos órgãos dirigentes destas instituições, pode ser que estas mudanças, por sua vez, conduzam ao reconhecimento da presença do racismo nas próprias filosofias das relações internacionais e das armas nucleares. A obrigação de “denunciar o racismo e compartilhar o fardo de desmantelar a supremacia branca” deve andar junto com a obrigação de reconhecer o fundamento racista da própria arquitetura nuclear (um hemisfério norte coberto por Estados nucleares, um hemisfério sul coberto por tratados de zonas livres de armas nucleares) e desmantelá-la, começando pelos dois Estados que detêm 93% de todas as armas nucleares.

 

Na maioria das noites de verão de 2020, ocorriam vigílias do movimento Black Lives Matter, não apenas nos grandes centros urbanos, mas também em pequenos municípios por todo o país. Em Arlington, Massachusetts, por exemplo, as pessoas permaneceram de pé, das 18 às 19 horas, usando máscaras e mantendo uma distância segura[xix], ao longo da larga avenida principal, enquanto uma fileira de bicicletas e carros passavam acenando, buzinando, fazendo sinais de positivo em apoio aos cartazes que diziam "Breonna Taylor", "Raychard Brooks", "George Floyd", "Diga o nome deles", "Mais ninguém", "Sem justiça, sem paz”. Nos últimos 8 minutos e 46 segundos do horário marcado, as pessoas se ajoelhavam, sobre um único joelho, e levantavam-se somente após os sinos da igreja anunciarem a conclusão da hora. A postura foi herdada das décadas de luta pelos direitos civis (iniciada por Martin Luther King Jr. e renovada por Colin Kaepernick e os jogadores negros da NFL); a duração desse gesto é uma referência direta ao assassinato de George Floyd, como se, ao reproduzir a ação de ajoelhar-se do policial, pudéssemos voltar atrás, reverter sua intenção e aquele desfecho. A postura expressa uma série de sentimentos: o pesar pela morte de George Floyd; um contrafactual desejo de que aquilo não tivesse acontecido (que lhe fosse permitido voltar a respirar); a vergonha por não termos percebido, coletivamente e durante tanto tempo, a magnitude dos danos infligidos; e um compromisso de reinventar uma forma de policiamento que nutra e auxilie nossas cidades, dos pequenos municípios aos grandes centros urbanos, ao invés de vitimá-las.

 

Talvez um gesto parecido com esse possa ser realizado — na privacidade do próprio lar, nas avenidas centrais ou em praças e espaços públicos — às 8h15 da manhã do dia 6 de agosto e às 11h02 da manhã do dia 9 de agosto: em memória daqueles que foram assassinados ou ficaram terrivelmente marcados; por remorso de não termos enfrentado mais cedo os danos infligidos; e para compartilharmos o compromisso com o desmantelamento da arquitetura nuclear, a fim de que nos baste rememorar, e nunca mais reencenar, o que aconteceu naqueles dias. Qual seria a duração apropriada? Talvez 53 segundos, o intervalo de tempo entre o momento em que as crianças de Hiroshima apontaram para o B-29 no céu azul e o ofuscante clarão que derreteu seus olhos e apagou o seu mundo. Ou, talvez, os 100 segundos que o Bulletin designou como a janela de tempo que nos separa hoje de uma catástrofe mundial.



Elaine Scarry professora de Estética e Teoria Geral do Valor na cátedra Walter M. Cabot na Universidade de Harvard, autora do recente Thinking in an Emergency


NOTAS DO AUTOR 

[1] Para um quadro resumido da pesquisa do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) sobre as mortes nos vários grupos raciais por aplicação da lei, de 1999 a 2015, ver Elise Hansen, CNN, “The Forgotten Minority in Police Shootings”, November 13, 2017. Https://www.cnn.com/2017/11/10/us/native-lives-matter/index.html. Outro extenso estudo revelou que “nativo-americanos homens têm 14 vezes mais encontros fatais [com a polícia] que homens brancos; nativo-americanos mulheres têm 38 vezes mais encontros fatais do que mulheres brancas.” Matthew Harvey, The Center for Indian Country Development, “Fatal Encounters between Native Americans and the Police”, março de 2020. Https://www.minneapolisfed.org/~/media/assets/articles/2020/fatal-encounters-between-native-americans-and-the-police/fatal-encounters-between-native-americans-and-the-police_march-2020.pdf?la=en 
[2] John Hersey, "Hiroshima" (New York: Vintage, 1946, 1984; 2nd edition 2020), pp. 35, 181, 146, 167 168, 183-5, 191.
[3] Estipulo que “quase” ninguém no mundo, exceto o povo suíço, agindo por uma ética da “igualdade de sobrevivência”, criou abrigos nucleares para 114% de sua população (assim como muitos hospitais e postos de primeiros socorros escondidos no interior das montanhas); não é inconcebível que alguns deles sobrevivam. Os Estados Unidos têm gasto igualmente uma grande quantidade de recursos em abrigos nucleares para uma única pessoa, o presidente, e seu pessoal - uma cidade miniatura escavada dentro de uma montanha - mas nenhum abrigo para a população. Para mais sobre o contraste entre o sistema de abrigos Suíço e Norte Americano, veja Elaine Scarry, "Thinking in an Emergency" (New York: Norton, 2011), pp. 51-69; e para mais detalhes sobre os abrigos estadunidenses, veja Garrett M. Graff, Raven Rock: em "Story of The U.S. Government’s Secret Plan to Save Itsefl - While the Rest of Us Die" (New York: Simon and Schuster, 2017)
[4] Langston Hughes, “Here to Yonder: Simple and the Atom Bomb”, Chicago Defender, 19 de agosto de 1945, citado em Vincent Intondi, "African Americans Against the Bomb: Nuclear Weapons, Colonialism, and the Black Freedom Movement" (Stanford, Ca.: Stanford Univerity Press, 2015), p. 15.
[5] Richard Rhodes descreve o encontro do presidente Roosevelt com o primeiro ministro Churchill na propriedade de Roosevelt, em Hudson Valley, Hyde Park, 18 e 19 de setembro de 1944, e “um memorando secreto” que “registrava pela primeira vez a posição anglo-americana sobre o primeiro uso da nova arma”. O documento contemplava bombardear múltiplas cidades japonesas, emitindo um alerta somente depois que a primeira cidade fosse atingida: “quando a ‘bomba’ estiver finalmente disponível, ela poderia, possivelmente, e após cuidadosa consideração, ser usada contra os japoneses, a serem advertidos que o bombardeio irá se repetir até que eles se rendam”. O treinamento do 509° Grupo Composto no outono de 1944, em Utah, envolvia identificação de alvo visual, algo que intrigou o grupo, já que estavam acostumados com uma “Europa nublada”, onde a identificação visual de um alvo raramente era possível. (Richard Rhodes, The Making of the Atomic Bomb [New York: Simon & Schuster, 1986, 2012], pp. 537, 585). 
[6] G. Schuyler, “Views and Reviews,” Pittsburgh Courier, 18 de agosto, 1945 e 15 de dezembro, 1945, citado em Intondi, "African Americans Against the Bomb", p. 14.
[7] Zora Neale Hurston, cartas à Claude Barnette, 21 de julho, 1946, publicado em "Zora Neale Hurston: A Life in Letters", ed. Carla Kaplan (New York: Doubleday, 2002), p. 545, e citado em Intondi, "African Americans Against the Bomb", p. 15.
[8] W.E.B. Du Bois, In "Battle for Peace: the Story of My 83rd Birthday, introd. Manning Marable" (New York: Oxford University Press, 2007), pp. xxi, xxiii, xxv, 23, 26-27, 37, 48, 49, 137, 144.
[9] O Fundo para o Desenvolvimento Humano calcula que 1 bilhão de dólares é uma pilha de notas de dólares com 112 quilômetros de altura, enquanto um trilhão de dólares forma uma pilha com altura aproximada de 110.000 quilômetros, ou “mais de 1/4 da distância entre a terra e a lua”, ver https://www.ehd.org/science_technology_largenumbers.php 
[10] “The President said that we must recognize the Quemoy is not our ship. Letters to him constantly say what do we care what happens to those yellow people out there.” Foreign Relation of The United States, 1952-54, vol. 14, pág. 662. Eisenhower também considerou usar uma arma nuclear contra Berlim em 1959, uma população branca. Eu descrevo esses eventos, onde presidentes consideraram usar armas nucleares, em Thermonuclear Monarchy: Choosing between Democracy and Doom (New York: Norton, 2014) 
[11] “Memorandum: Secretary of Defense Laird to NSA Kissinger, June 25, 1969. Subject: Review of US Contingency Plans for Washington Special Action Group,” Tab L, tornado público em outubro de 2006 (Documento 12, “How Do You Solve a Problem Like Korea,” Electronic Briefing Book 322, National Security Archive, George Washington University). Ver também Chris McGreal, “Papers Reveal Nixon Plan for North Korea Nuclear Strike,” Guardian, 7 de julho de 2010.
[12] Sobre a proposta de Nixon de usar armas nucleares contra o Vietnã do Norte em 1972, ver Deb Riechmann, “Nixon Discussed Nuclear Strike in Vietna”, Boston Globe, 3 de março de 2002.
[13] Sobre a publicação de documentos mostrando as considerações de Johnson para um ataque preventivo à China, ver Jim Mann, “U.S. Considered ’64 Bombing to Keep China Nuclear-Free,” Los Angeles Times, 27 de setembro de l998.
[14] Nick Pike, “Nuclear Threats during the Gulf War,” Federation of American Scientist, 19 de fevereiro de 1998. Ameaças feitas pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido incluíam a total destruição do país: por exemplo, o ministro da relações exteriores britânico, Douglar Hurd, advertiu contra qualquer ação que viesse a “provocar uma resposta que poderia acarretar na destruição completa daquele país”, https://fas.org/irp/eprint/ds-threats.htm. Para um registro das ameaças dos Estados Unidos e dos britânicos, assim como do uso de munições de urânio empobrecido contra o Iraque, ver Joseph Gerson, "Empire of the Bomb: How the U.S. Uses Nuclear Weapons to Dominate the World" (Ann Arbor, Michigan: Pluto Press, 2007), p. 217f. 
[15] Dan Zak, “He saw a nuclear blast at 9, then spent his life opposing nuclear war and climate change” Washington Post, 24 de Agosto de 2017.
[16] Dan Zak, “A Ground Zero Forgotten: The Marshall Islands, Once a U.S. Nuclear Test Site, Faces Oblivion Again”, Washington Post, 27 de Novembro de 2015.
[17] Joshua Wheeler, “It’s Been 75 Years, and Amercian Still Won’t Admit a Nuclear Disaster”, New York Times, 16 de julho de 2020. A presença de famílias hispânicas também é percebida por Maria Cramer, que escreve, “Autoridades não alertaram qualquer um dos residentes - muitos deles fazendeiros, navajos, povoações mexicanas e seus descendentes, que criavam gado e bebiam água de cisternas - sobre o teste” (”’Now I Am Become Death’: The Legacy of the First Nuclear Bomb Test”, New York Times, 15 de julho de 2020). Um estudo de 2010, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), informava: “Os padrões de segurança adotados para aqueles que estavam informados do programa eram diferentes daqueles adotados para o público desinformado. Quem trabalhava projeto sabia o suficiente para deixar as áreas quando as altas taxas de radiação foram medidas, ou tomar as precauções necessárias para minimizar a exposição, mas os membros do público não percebiam que mudanças em sua conduta eram necessárias, e a equipe do projeto não solicitou a evacuação, nem medidas protetivas, mesmo quando a tolerância pré-determinada à taxa de exposição havia sido excedida”. Considerando a composição racial dos residentes que viviam próximos ao local do teste, o estudo observa que o general Leslie Groves estipulou “uma área de 27x38 quilômetros na qual não vivia nenhum nativo-americano”. Um gráfico resumindo a composição racial dos residentes nas imediações específica a presença de brancos e hispânicos, mas não de nativo-americanos. “Final Report of the Los Alamos Historical Document Retrieval and Assessment (LAHDRA) Project”, CDC, novembro de 2010, p. 10-3, 10-15, 10-50. Um perímetro mais amplo, no entanto, revela a presença de muitos nativo-americanos. A Indian Country Today afirma que as 19 mil pessoas vivendo dentro de um raio de 80 quilômetros do local de teste em Trinity incluem 19 comunidades Pueblo, duas tribos Apache e várias “secções da Nação Navajo”. Tanya H. Lee, “H-Bomb Guinea Pigs! Natives Suffering After New Mexico Tests”, Indian Country Today, 5 de março de 2014, https://indiancountrytoday.com/archive/h-bomb-guinea-pigs-natives-suffering-decades-after-new-mexico-tests-jpZAFe1gFEmRCGfiq42BDg 
[18] E. Frohmberg, R. Goble, V. Sanchez, D. Quigley, “The Assessment of Radiation Exposures in Native American Communities from Nuclear Weapons Testing in Nevada,” Risk Analysis, Fevereiro, 2000, pp. 101-111. 
[19] Departamento de Estado e Departamento de Defesa, “Written Statement of the Government of the United States,” Corte Internacional de Justiça, Audiências sobre a questão: “Is the threat or use of nuclear weapons in any circumstance permitted under international law?”, 1995, p.33 
[20] Jerry Useem, “Power Causes Brain Damage: How Leaders Lose Mental Capacities – Most Notably for Reading Other People – that Were Essential to Their Rise,” The Atlantic, Julho/Agosto de 2020. A pesquisa - mostrando que pessoas em posição de poder se tornam “menos aptas a verem as coisas do ponto de vista do outro”, além de “mais impulsivas e menos conscientes dos riscos” - foi levada adiante nos estudos do psicólogo Dacher Keltner, em UC Berkeley, e pelo neurocientista Sukhvinder Obhi, na Universidade de McMaster, Ontario.
[21] Kim Zetter, “How Digital Detectives Deciphered Stuxnet, the Most Menacing Malware in History,” Wired, 11 de julho de 2011. Ver também o documentário Zero Days, dirigido por Alex Gibney, 2016.
[22] O antropólogo Hugh Gusterson chama essa assimetria no pensamento estadunidense de “orientalismo nuclear”, a crença de que os outros países são “muito infantis, muito imaturos e muito irresponsáveis para serem confiáveis com armas nucleares”. Ver sua vivaz e ilustrada palestra “Democracy, Hypocrisy, First Use”, 4 de novembro de 2017, na conferência “Presidential First Use: Is it Legal? Is it Constitutional? Is it Just?”, Harvard https://www.youtube.com/watch?v=zdLXKNivl9M&list=PL2SOU6wwxB0vZEgAvRotf9-INc9nA8t02&index=10&t=0s. Para ler uma transcrição, ver Public Books, “Virtual Roundtable on Presidential First Use of Nuclear Weapons”, 26 de fevereiro de 2018. 
[23] Ver Hans Kristensen, “Urgent: Move US Nuclear Weapons Out of Turkey,” Federação dos Cientistas Americanos, 16 de outubro de 2019.
[24] “Questions on the Draft Non-Proliferation Treaty Asked by U.S. Allies Together with Answers Given by the United States”, 28 de abril de 1967, Tab A, vinculada a “Letter from the Under Secretary of State (Katzenbach) to Secretary of Defense Clifford”, 10 de abril de 1968, Foreign Relations of the United States, 1964-68, Vol. XI, Arms Control and Disarmament, p. 575.
[25] Langston Hughes, “Colored Asia Makes Highly Colored News These Days,” Chicago Defender, 15 de agosto de 1953, p. 11, citado em Intondi, "African Americans Against the Bomb", p. 31.
[26] Hugh Gusterson, “The Blinders on the U.S. Nuclear Policy Establishment,” Bulletin of Atomic Scientists, 8 de janeiro de 2019.
[27] Benoît Pelopidas “Nuclear Weapons Scholarship as a Case of Self-Censorship in Security Studies”, Journal of Global Security Studies, 2016.
[28] Gayle Spinazze, "WCAPS Statement: Standing Together Against Racism and Discrimination”, Bulletin of the Atomic Scientists, 10 de junho de 2020. Como escreveu Rachel Bronson, ao assinar a declaração, “O Bulletin reconhece o racismo como uma ameaça para a humanidade, e que a segurança nacional não pode avançar até que todos os cidadãos tenham sólidas garantias de segurança pessoal (…) Nós reconhecemos que temos muito trabalho a fazer nesta frente, para servir como aliados das comunidades racializadas e daqueles que advogam por mudanças” 

NOTAS DO TRADUTOR

[ i ] Dia da Memória, celebração estadunidense realizada pela primeira vez em 1866, para homenagear os militares do país que morreram durante a Guerra Civil. Foi oficializado em 1868 e tornado feriado nacional em 1971, a ser comemorado na última segunda-feira do mês de maio.
[ ii ] No original, “good massa”, coloquialismo dos negros estadunidenses durante a escravidão, referindo-se a certos proprietário de escravos que eventualmente eram percepidos como "bons" senhores. cf. "Born in Slavery: Slave Narratives from the Federal Writers' Project, 1936-1938: Kansas Narratives, Volume VI" (gutenberg.org), e "Slavery And Discrimination In America History Essay" (ukessays.com). Para manter a referência à escravidão; a relação paternalista entre senhor e escravizado; e o tom irônico e crítico de Hurston, optou-se por traduzir como “bom sinhô”, evocando o imaginário escravista brasileiro e reproduzindo uma forma popular historicamente associada à fala dirigida ao senhor de escravos.
[ iii ] Du Bois (1868-1963), sociólogo, historiador, socialista, pan-africanista, ativista estadunidense pelos direitos civis. Um dos mais importantes intelectuais do movimento negro e primeiro homem negro a receber um Ph.D da universidade de Harvard. Tornou-se membro do Partido Comunista e expatriou-se em Gana, onde obteve cidadania e viveu até sua morte.
[ iv ] Kinmen ou Quemoy, pequeno arquipélago geograficamente próximo de Xiamen. A declaração se dá no contexto da crise nas Ilhas Quemoy durante a Guerra Fria. As Ilhas Quemoy são um grupo de ilhas controladas por Taiwan, localizadas perto da costa da China continental. Durante a guerra civil chinesa, as ilhas foram disputadas entre o governo nacionalista de Taiwan e o governo comunista da China continental.
[ v ] removido.
[ vi ] Malware desenvolvido para comprometer o programa nuclear iraniano. O alvo específico era a instalação de enriquecimento de urânio de Natanz Nuclear Facility. O malware foi projetado para infectar sistemas de controle industrial (SCADA) da empresa Siemens e alterar o funcionamento das centrífugas usadas no enriquecimento de urânio, causando danos físicos enquanto reportava aos operadores que tudo estava normal. Há amplo consenso entre pesquisadores de segurança de que o Stuxnet foi uma operação conduzida pelos governos de Estados Unidos e Israel, embora durante muito tempo não tenha havido reconhecimento oficial completo. O malware foi descoberto publicamente em 2010, mas acredita-se que estivesse em operação desde pelo menos 2009.
[ vii ] Segundo o autor mencionado, "pensamento duplo indica a capacidade de ter na mente, ao mesmo tempo, duas opiniões contraditórias e aceitar ambas" cf. George Orwell, em "1984"
[ viii ] O encontro pode ser assistido no canal do Brookings Institute em https://youtu.be/HNhuFumSg1E 
[ ix ] Em 2020, o mundo atravessa a pandemia do Covid-19, e o uso de máscara e distância adequada eram uma das orientações para diminuir o risco de contágio e transmissão.

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